Os portadores deste transtorno estão impossibilitados de ter controle sobre seus movimentos, sua impulsividade e sua atenção, provocando prejuízo no desempenho escolar e no relacionamento interpessoal, bem como problemas emocionais que podem se estender ao longo da vida.
Cientes desses problemas, pesquisas neste campo se fazem necessárias, para que se possa conhecer mais sobre um transtorno relativamente recente, mas que pode ter sérias repercussões no desenvolvimento psíquico normal.
Apesar da vontade de participar nas atividades propostas, a criança com TDAH rapidamente se apercebe que não tem condições de corresponder ao que lhe é exigido, pois a dificuldade de controle interno (impulsividade) é freqüente, bem como o controle motor (hiperatividade). Seguidamente é repelida, o que propicia a instalação de algumas comorbidades, como baixa auto-estima e depressão, piorando o prognóstico.
Os avanços farmacológicos permitem-nos controlar ou eliminar os sintomas motores inerentes ao TDAH. O mesmo não acontece com os da esfera emocional. Isto faz pensar que os estudos nesta área devem continuar, para que se possa entender como a criança se percebe num corpo que não consegue controlar e a partir daí desenvolver estratégias de intervenção.
Etiologia do transtorno de déficit de atenção/hiperatividade
Examinando a literatura, constata-se que o TDAH esteve presente em várias civilizações, tendo sido olhado e tratado de forma muito diferente da atual. Os primeiros estudos sobre o assunto começaram apenas no início do século XX, tendo sido aventadas várias hipóteses. Uma das denominações mais conhecidas foi a de Lesão Cerebral Mínima, quando se constatou que lesões no sistema nervoso central poderiam provocar alterações comportamentais; contudo, não foi possível especificar qual a área lesada. Essa impossibilidade originou uma alteração no conceito, passando então a chamar-se de Disfunção Cerebral Mínima.
Devido à multiplicidade de sintomas, vários profissionais podiam estar envolvidos no diagnóstico e tratamento (médico, psicólogo, pedagogo). Isso fez com que várias hipóteses etiológicas fossem levantadas. Hoje, é quase consenso de que dificilmente apenas um fator etiológico esteja envolvido.
Enquanto sua etiologia continua desconhecida, alguns estudos sugerem existir influência genética no desenvolvimento da doença em algumas crianças e adultos, embora ainda não seja possível identificar qual o gene responsável. Pensa-se que vários genes de pequeno efeito estejam envolvidos. É então fundamental investir na sua identificação, pois assim se poderia tratar e prevenir melhor os diferentes tipos de manifestação da doença. Seria então possível desenvolver estratégias de prevenção.
Apesar dos indiscutíveis avanços sobre o conhecimento do cérebro, a etiologia desta doença mantém-se uma incógnita. A região frontal do cérebro parece ser a responsável pela inibição comportamental, pela capacidade de prestar atenção, pelo autocontrole e pelo planejamento para o futuro. Por isso, pensa-se que haja comprometimento desta área do cérebro no surgimento da doença. A lesão pode ser apenas de ordem fisiológica, e não anatômica. Logo, não aparece em exames como o Eletroencefalograma. A falta de inibição característica deste transtorno pode ser devida à pouca elaboração de neurotransmissores inibitórios. Como conseqüência, predominam os excitatórios.
Aspectos psicológicos do transtorno de déficit de atenção/hiperatividade
Além do o impacto social causado por este transtorno devido ao alto custo financeiro, a família vive em um estresse constante e a criança sofre com seus prejuízos acadêmicos, implicando em queda da auto-estima.
Crianças com TDAH são facilmente reconhecidas onde quer que se encontrem, provocando nas pessoas os mais diversos sentimentos, freqüentemente negativos e reprovadores. Na verdade, a dificuldade de interação freqüentemente presente nestas crianças é conseqüência de sua impulsividade e/ou agressividade, provocando rejeição por parte dos colegas. O conseqüente isolamento implica numa má valorização de si mesmo. A baixa auto-estima freqüentemente constatada é derivada de repetidas frustrações vividas. A criança é incapaz de inibir seu impulso e usar seu autocontrole. Tem ainda uma incapacidade de usar o senso temporal; só consegue enfocar o presente, por isso age impulsivamente. O passar do tempo não é visto da mesma forma que para os outros, por isso não se consegue organizar em relação a prazos e futuro em geral.
Estas crianças perdem uma parte preciosa de sua infância, uma vez que vivem um conflito diário entre tarefas, lições de casa, relacionamentos com colegas, familiares e outras atividades. Além disso, têm poucos amigos, os convites para aniversários ou dormir fora são quase inexistentes, bem como o são os elogios de pais e professores.
Freqüentemente, os sintomas aparecem cedo na vida da criança, embora sejam mais evidentes a partir do ingresso escolar, uma vez que durante o processo de aprendizagem ela precisa focar mais sua atenção e permanecer sentada durante as aulas. Já na pré-escola observa-se que essas crianças têm dificuldade de fazer tarefas esperadas para a idade, se comparadas com seus colegas de sala. Entre elas estão: colorir dentro dos espaços corretos, recortar, colar.
O baixo limiar à frustração costuma ser marcante: não aceitam perdas. Se isso ocorre em um jogo ou brincadeira, a tendência é inverter o resultado a qualquer custo, transgredindo as regras, tentando mudá-las a seu modo, ou até mesmo acabando com a brincadeira.
Por serem crianças com problemas na esfera psíquica, intelectual e afetiva, são freqüentemente excluídos dos grupos escolares e sociais, têm baixo rendimento escolar, o que implica em menor instrução e conseqüentemente em menor qualificação. |
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É um distúrbio neuroquímico mas não significa que a criança tenham baixo intelecto. Hiperatividade e impulsividade são, então, parte do mesmo problema: a dificuldade de inibição de comportamento.
É válido ressaltar que 40 a 60% das crianças entram na adolescência ou idade adulta com os mesmos problemas, embora consigam se manter mais controladas em nível corporal. Suas mentes permanecem frenéticas em seus corpos já mais calmos. Geralmente, não conseguem se organizar emocional ou profissionalmente, são lábeis nas suas vivências, entrando e saindo de empregos, casamentos, projetos e compromissos. O mecanismo de reflexão, filtragem, censura e inibição de impulsos é defeituoso.
Apesar do quadro, saliento que os comportamentos não são uma aberração, eles são normais, apenas inadequados para a faixa etária da criança em questão.
O diagnóstico é clinico. Não existe nenhum teste ou exame laboratorial que ateste a presença do quadro. Quanto ao item tratamento, o trabalho deve ser multidisciplinar devido à multiplicidade dos sintomas. O tratamento reeducativo psicomotor pode estar indicado para melhorar o controle do movimento. Nele, família, escola e demais ambientes devem ser incluídos e orientados a propiciar um atendimento mais individualizado bem como propiciar ambientes mais calmos e livres de estímulos.
Psicoterapia individual de orientação analítica é indicada para o manejo das comorbidades, como baixa auto-estima, dificuldades interpessoais e dificuldade de controle dos impulsos.
Segundo alguns estudos, acreditava-se que o TDAH fizesse parte de uma fase normal do desenvolvimento infantil e que por isso atenuaria ou cessaria até à adolescência. Hoje se sabe que isso pode não ocorrer. Ao grupo cujo quadro é considerado decorrente de um atraso de desenvolvimento, 30% dos indivíduos não apresentarão nenhuma perda funcional decorrente do TDAH no início da juventude. Ao grupo chamado de persistente, 40% dos portadores de TDAH continuam apresentando manifestações do quadro durante a vida adulta. Um terceiro grupo, chamado desenvolvimento para a decadência, às características do TDAH persistentes, juntam-se graves manifestações psicopatológicas como alcoolismo, abuso de drogas, depressão, podendo chegar a suicídio e criminalidade. Neste grupo estão aproximadamente 30% dos indivíduos.
O tipo do tratamento, características familiares e pessoais como potencial intelectual, existência ou não de comorbidades podem ser indicativos do prognóstico.
Não necessariamente essas crianças têm comprometimento no desenvolvimento cognitivo, o mesmo não se pode dizer quanto ao emocional. Quando um deles está prejudicado, elas podem ter dificuldade em abstrair e generalizar e isso provoca problemas de relacionamento com outras crianças e adultos. Sem afeto não há cognição pois, se não se sentirem seguras terão mais dificuldade em aprender. Com esta dificuldade ligada à dificuldade de planejar o futuro, não há motivação para aprender. Esta pode ser uma das razões para o freqüente baixo rendimento escolar, uma vez que a parte cognitiva está bem desenvolvida.
Por serem crianças com problemas na esfera psíquica, intelectual e afetiva, são freqüentemente excluídas dos grupos escolares e sociais. A impulsividade e/ou a agressividade presentes nessas crianças fazem com que tenham dificuldade de interação e sejam rejeitadas pelos colegas.
Freqüentemente seus professores notam uma discrepância entre o trabalho realizado e a capacidade intelectual. A criança sofre com seus prejuízos acadêmicos implicando em queda da auto-estima. É freqüente estas crianças não conseguirem terminar tarefas e alegarem que o tempo não foi suficiente para copiar ou que o colega conversou muito.
Pode-se afirmar que estas crianças sentem uma infância, quiçá uma vida, muito sofrida, na qual precisam investir muita energia para se conseguirem adaptar e serem aceitos.
A literatura mostra que nem sempre este objetivo é alcançado, a busca é árdua e incessante, deixando infinitas marcas de frustração que confirmam os rótulos dados pelo senso comum.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Pode-se inferir que conviver com crianças hiperativas é partilhar de uma ansiedade constante, é manejar uma série de sentimentos ambivalentes. Imagina-se o quanto lhes deve ser difícil entender e conviver num mundo com cada vez mais regras a cumprir, e onde as crianças são cada vez mais impedidas de partilhar espaços físicos amplos que lhes permitam extravasar toda a energia contida.
A literatura é vasta em explicar os sinais e sintomas deste transtorno e suas implicações no meio familiar e social, mas, e quanto ao ponto de vista da criança?, como ela se vê, como percebe o meio? Os dados bibliográficos não são tão extensos no que tange a este ponto.
Pode-se observar que, de um modo geral, para eles tudo é muito rápido, não há envolvimento com o que fazem, consequentemente, não há prazer. Há muito mais para ver, muito mais para fazer.
Estas constatações e a certeza de nem sempre o TDAH é uma fase, faz pensar que a investigação quanto à etiologia e tratamento deste transtorno deve continuar para que seja possível aliviar o sofrimento de crianças e adultos e lhes proporcionar uma vida feliz e bem adaptada.
Sabe-se o quanto o bem estar emocional influencia o aprendizado, por isso, pensa-se que os responsáveis por estas crianças devem escolher locais adequados às demandas delas, onde possam aperfeiçoar seus processos sensoriais, espaciais, temporais, perceptivos e imaginativos, bem como propiciar um ambiente estável e seguro onde se sintam bem, porque nestas condições a criatividade intelectual fica facilitada. |