Apreensão, tristeza, raiva, negação da realidade, entorpecimento. Estes são alguns dos sentimentos descritos por quem recebe a notícia da morte de um ente querido.
As crianças também não são poupadas destes assuntos visto que as notícias estão em todos os meios de comunicação. O que elas entendem, o que devemos contar, como os ajudar? Procurarei responder a algumas destas perguntas ao longo deste artigo.
O que é luto, afinal? Luto é uma reação normal à perda de algo ou alguém com o qual havia um vínculo. Tem duração e intensidade variável e envolve aspectos físicos, emocionais, sociais e espirituais. É um processo de elaboração psicológica que tem em vista uma reorganização a fim de permitir uma adaptação à nova realidade.
Algumas fases são consideradas normais:
1) A reação inicial é de choque que pode durar algumas horas ou dias.
2) A consciência da perda vai se instalando e com ela o sofrimento psicológico, nesta fase é comum a agitação física.
3) Após o primeiro ano a perda começa a ser aceita como irreversível e pode-se instalar a apatia e a depressão.
4) Lentamente, sentimentos positivos e um novo olhar frente à nova realidade começam a surgir. É comum o reatar de amizades e relações sociais abandonadas durante o processo.
A raiva em relação à pessoa perdida faz parte do luto e, por mais que seja inútil, é uma condição necessária para que este siga um curso saudável. É necessário que o indivíduo tente por todos os meios reaver a pessoa perdida para que seja capaz de admitir a derrota e aceitar a morte como algo irreparável.
Toda a família que passa por uma perda significativa e traumatizante tenta se recuperar desse abalo. Por vezes o adulto deprimido pela perda não consegue dar a atenção necessária à criança. Após uma fase de protesto ela se aquieta e isso faz com que as pessoas pensem que o pesar já passou.
Se ela é muito pequena e ainda não tem mecanismos de defesa que a permitam elaborar essa perda pode dar origem a um processo de luto complicado.
Até aos quatro anos, a criança ainda não tem o conceito abstrato de morte como cessação final e irreversível da vida, não está evolutivamente preparada para fazer o trabalho de luto, ele só pode ser completado alguns anos mais tarde, quando a realidade da morte pode ser percebida, conhecida e compreendida. Para ela, a morte é uma partida para um lugar distante de onde é possível voltar, por isso a entende como um abandono. |
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A criança pequena não consegue conceber a morte como realidade. Para ela parece um sono e pode até pensar que é possível despertar. Freqüentemente, em seu discurso, existe um perfeito conhecimento da perda e relatos sobre os rituais fúnebres, embora coexista também a fantasia de retorno. Ela sempre procura compreender o que está ao seu redor e necessita da confirmação da morte infinitas vezes para a aceitar. Nesse sentido, o ambiente pode ser um facilitador mostrando-se receptivo, escutando e dando respostas. A criança traz com extrema facilidade e clareza seus desejos e angústias e deve ser ajudada a também enfrentar sua perda, a expor seus sentimentos e a expressar seus temores.
Em crianças e adolescentes não é muito comum o choro. Aparecem mais frequentemente manifestações somáticas, baixo rendimento escolar, agressividade e dificuldades no relacionamento. Esta dificuldade em elaborar a perda pode dar origem a um luto complicado.
Algumas condições necessárias para a boa elaboração:
1) a existência de um relacionamento razoavelmente seguro;
2) o recebimento de informações imediatas e seguras sobre o ocorrido;
3) ter a possibilidade de poder perguntar e obter respostas tão sinceras quanto possível;
4) possa participar do pesar da família, inclusive dos rituais fúnebres.
As perdas podem torná-la não muito confiante nos investimentos afetivos, e o temer perder outras pessoas pode estar muito presente. Por vezes pode ser necessário encaminhar a criança para atendimento psicológico. O primeiro passo é proporcionar um local e uma relação onde possa expressar seus sentimentos. O vínculo entre a criança e a terapeuta, permite o aflorar de conteúdos vindos em forma de histórias, brincadeiras, sonhos.
Um luto saudável se consegue quando é permitido expressar abertamente impulsos para reaver e recriminar a pessoa perdida, com toda a saudade e a dor que a perda do ente causou. Apesar da realidade e do sofrimento, o trabalho terapêutico permite o amadurecimento dos recursos para que se possa lidar com a perda de um modo mais adequado e assim superar a fase em que se encontra.
A morte entra em nossas vidas sem que a busquemos. Nas crianças, os temores são muito mais ameaçadores, por isso ela vive este evento de modo mais intenso. Vimos que durante a reacomodação familiar é importante que um dos seus elementos possa estar mais atento e aceite as reações das crianças, conforme suas idades visto que cada uma irá reagir de modo diferente. Se necessário, a busca por um profissional pode ser de grande valia auxiliando no restabelecimento da confiança e facilitando as relações inter-pessoais. . |